Simplificação ou emburrecimento?

Acredite, este post não vai fazer a menor diferença na sua vida. É só um daqueles assuntos que não levam a lugar nenhum e que seriam mais bem aproveitados numa mesa de bar do que num post de blog. Ainda está aí? Vai perder seu tempo hein…

Se alguém pedir, de bate pronto, um ícone da literatura nacional quem você diria? E da literatura internacional? Pois é, não foi ninguém contemporâneo. Se foi não adianta nada, porque como nós não estamos numa mesa de bar a sua opinião não vai entrar aqui, pelo menos não no corpo do artigo (nos comentários, vá lá). Pode ser que alguém diga que é por falta de afastamento histórico, mas tenho outro palpite, estamos emburrecendo a língua. Não a sua língua – se estivéssemos num bar alguém faria essa piada, com certeza – me refiro a língua portuguesa.

O que vejo de dicas para escrita na internet é sempre a mesma coisa: simplificação do texto, nivelamento por baixo e objetividade. Se uma frase não atinge o usuário ela deve ser reescrita. Tudo bem, é compreensível que seja assim, mas os impressos vão seguindo o mesmo modelo. Os livros de hoje em dia serão equiparados com os clássicos do passado? Duvido. Os clássicos de hoje (reconhecidos tardiamente daqui a 30, 40 anos) não serão tão bons quanto os de antes. E os que vierem depois deles – o que será de nós?! – serão piores ainda.

Estou reelendo Lolita (do Nabokov), com uma tradução bem rebuscada. É um livro que 1) não tem uma história fácil de digerir e 2) é escrito num nível de detalhes e metáforas absurdo. Metáforas como aquelas não funcionariam na internet e vão acabar não sendo mais usadas por ninguém. Essa perda não é simplificação, é emburrecimento. Humbert Humbert, o Adjetivado, não passará de uma lembrança remota do uso já inadequado das palavras.

Que fique claro que não me refiro aos enredos. Existem histórias boas hoje sim, mas aquela brincadeira com as palavras de antigamente vai sumindo. Não existem mais entrelinhas, o texto está ali, sem graça, sem galanteio.

Não tenho talento pra escrever, mas se tivesse viveria disso com prazer. Penso nos que tem esse dom, no que será daqueles que seriam os Nabokov de hoje em dia. Pense nesse post como uma bandeira em defesa dos talentos que não serão aproveitados – na mesa de bar o nível etílico estaria me fazendo berrar uma coisa assim.

Uma coisa pra mim é certa: fosse Machado de Assis webwriter com certeza estaria tomando bronca a uma hora dessas.


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Comentários

  • http://dtabach.com.br durval

    Descobri recentemente o Mia Couto. Autor estrangeiro (Moçambique) escrevendo num português diferente, ao mesmo tempo simples e com entrelinhas densas de significado. Acho que você vai gostar.

    PS – o drupal devia colocar pra gente o “http://” em vez de avisar que o endereço da página é inválido…

  • http://mudadeideia.com.br Israel Teixeira

    Acredito que seja só questão de nicho. Se eu gostar de entrelinhas, posso ouvir um Jazz bem tocado, fitar um bom quadro, ler poesia…

    Os artistas não estão mais raros, só continuam dissolvidos numa população que sempre existiu e que gosta de ignorá-los durante a maior parte do dia.

    E, convenhamos, artista que é artista, consegue atingir os dois públicos, consegue cozinhar um prato simples e infantil mas extremamente sofisticado (vide trilha sonora de O Rei Leão, haha)

    Acho que o Assis conseguiria ser bem (sub|ob)jetivo.

    Graceful degradation.

    vlw amigo.

  • fernanda

    Oi !

    Seu blog é bem bacana, parabéns !
    Encontrei algumas matérias suas através do diHITT!
    Você podia enviar também pro PC Chip né?, o link dele é http://www.pcchip.com.br

    Eu acompanho notícias de blogs por lá também, ele é tipo o diHITT e é muito bacana, e bem bonito.

    Beijo !

    Fernanda