Nasci e cresci na cidade, tenho ZERO relação com a vida dura da seca nordestina, mas o livro é BOM, TÃO BOM, que eu me senti lá, vendo o problema dessas pessoas.
No livro seguimos Fabiano, Sinhá Vitória, seus dois filhos e a cachorra Baleia (melhor personagem, sim ou com certeza?). Fugindo de uma seca eles encontram uma fazenda abandonada. A história então se desenrola, sempre com a preocupação dos grandes problemas (outra seca, grandes chuvas), mas também de olho nas pequenas perturbações como a cama desconfortável ou o soldado encrenqueiro.
[Baleia] Chegou-se a ela em saltos curtos, ofegando, ergueu-se nas pernas traseiras, imitando gente. Mas sinhá Vitória não queria saber de elogios.
—Arreda!
Deu um pontapé na cachorra, que se afastou humilhada e com sentimentos revolucionários.
Embora os personagens sejam pessoas simples e tenham recursos limitados em todos os sentidos, inclusive e especialmente intelectuais (a admiração de Fabiano por Seu Tomás da Bolandeira é o exemplo disso), são expostos de uma forma extremamente rica.

O relacionamento de Fabiano e Sinhá Vitória, especialmente no fim do livro é digno de nota. A admiração e a confiança que um sente pelo outro é, pra mim, a definição de amor na sua forma mais pura e poderosa.
Como era que sinha Vitória tinha dito? A frase dela tornou ao espírito de Fabiano e logo a significação apareceu. […] Estava certo. Matutando, a gente via que era assim […] Agora Fabiano percebia o que ela queria dizer. Esqueceu a infelicidade próxima, riu-se encantado com a esperteza de sinha Vitória. Uma pessoa como aquela valia ouro. Tinha ideias, sim senhor, tinha muita coisa no miolo. Nas situações dificeis encontrava saída.
Sério, é simplesmente incrível como o Graciliano Ramos consegue escrever sobre um assunto tão difícil de um jeito tão leve. Ri em vários momentos, chorei em um específico.
Ah, e o livro é super curtinho, a edição da Record tem só 180 páginas. Não tem desculpa para não ler.
Nota 10/10. Recomendo para TODO MUNDO que queira ler uma boa história.
Spoilers
Depois que a família se instala na fazenda, o dono chega e emprega a família.
Depois o livro explora cada um dos personagens principais. Fabiano dá um mole, bebe demais, acaba preso e, com razão, pega pinimba do soldado que o prendeu. Sinhá Vitória é toda ocupada com a lida da casa, dos animais, das crianças e da cama do casal, que tem um nó na madeira que machuca ao deitar.
As crianças são um barato. Uma delas quer saber mais sobre o que é “inferno” e esse capítulo é hilário. Mais para frente a família toda vai para a cidade, o que também rende um capítulo excelente.
Agora olhavam as lojas, as toldas, a mesa do leilão. E conferenciavam pasmados. […] Seria que aquilo tinha sido feito por gente? […] Nova dificuldade chegou-lhe ao espírito, soprou-a no ouvido do irmão. Provavelmente aquelas coisas tinham nomes. O menino mais novo interrogou-o com os olhos. Sim, com certeza as preciosidades que se exibiam nos altares da igreja e nas prateleiras das lojas tinham nomes. Puseram-se a discutir a questão intricada. Como podiam os homens guardar tantas palavras? Era impossível, ninguém conservaria tão grande soma de conhecimentos. Livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas. Não tinham sido feitas por gente.
O que falar de Baleia, A MELHOR PERSONAGEM de longe? Lá no nono capítulo ela parte dessa para uma melhor, mas, mesmo sem usar esse nome, Graciliano descreve o melhor céu dos cachorros possível. E aqui estou eu chorando de novo por causa da pobrezinha.

No fim, a vida segue seu ciclo e a seca chega novamente, empurrando a família para outro lugar. Embora sério, o apoio que um dá pro outro é bonito demais. Coisa triste, mas com a energia lá em cima, sabe como é que é?
Tá esperando o quê? Vai lá ler esse CLÁSSICO!!!