Diário de um passageiro

Na época que decidi criar conteúdo para internet eu andava todo dia no mesmo ônibus no mesmo horário vendo as mesmas pessoas. O fato de vê-las todo dia, podendo observar seu comportamento – às vezes caras de tristeza, às vezes felicidades, ligações telefônicas – me levou a pensar em escrever um blog que teria como título “Diário de um passageiro”. A idéia não vingou (pra variar por preguiça minha).

Ontem terminei de ler “Quincas Borba” do Machado de Assis onde o personagem principal, Rubião, vai da pobreza à morte passando pela riqueza, paixão, ambições, loucura e fome (tudo isso contando com a companhia de um dos Quincas Borba do livro).

Esses fatos aparentemente disconexos, a não ser pelo fato de fazerem parte da minha vida, ficaram mais perto um do outro hoje, quando peguei o mesmo ônibus que pegava antes. Os personagens de antes foram-se embora e percebi a entrada de outros, novos, melhores por suas raridades e diferenças.

Primeiro um ruivo com barba grande e sem bigode que me remeteu à um daqueles leprechauns (ele não vestia verde). Depois um louco, não como o Napoleão/Rubião do Machado, mas uma mistura de Didi Mocó com Ricardo Blat. O cara fazia altos gestos e caretas e todo mundo achava a maior graça. O casal que estava sentado atrás de mim soltou um “só tem raridade nesse ônibus” o que me fez pensar na importância da nossa sanidade, na linha tênue entre ter estilo e ser ridículo e um pouco no sentido da vida (a viagem estava acabando à essa altura).

Fatos do cotidiano me levam a adotar a visão Machadiana da vida: um espetáculo tedioso, onde fatos relevantes são excessões. Vivemos num drama com romance, comédia, suspense, ficções, mentiras, vilanias, ironias e cinismo.

A vida é um espetáculo e o gênero só depende do ponto de vista.


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Comentários

  • Anônimo

    seu chorão

  • http://bookgame.tumblr.com lanzão

    Eu tenho dois blogs e um twitter com uma série chamada “diario de um passageiro ” não sei se vc tentou me copiar mas se quiser se divertir é só seguir @diario_viajante.

    • Elia

      Não, não tentei copiar.

  • Vera

    Elia, que coincidencia, tenho um diário de bordo que faz sucesso no face, todo dia, rumo ao trabalho, levo duas horas e meia EM UM ONIBUS pra chrgar, descrevo o personagem do dia, o companheiro de poltrona…rs, vou postar aqui um caso>

    DIÁRIO DE BORDO- 02/02 – Senta neste momento uma senhora de meia idade, com um vestido estampado e um batom vermelho carmin, que faz com que qualquer neto fuja de um beijo carinhoso e sua pele enrrugada pelo tempo se sobressaia assustadoramente, seu óculos pendurado numa corrente dourada que se estende até os seios tao flácidos que não é possível descrever onde termina, talvez próximo ao umbigo. Carrega uma bengala rosa, talvez pela artrose que não suporta seu peso ou para ter prioridade numa fila de banco.
    Neste momento, a senhora me pede a gentileza de colocar a bengala com sua bolsa com detalhes dourado ao meu lado, pois estou na poltrona da janela. Tenta sem sucesso um diálogo do qual limito-me a responder o necessário. Reclama da TV desligada, não vai poder assistir o programa predileto de culinária.
    Sua bengala desliza pela segunda vez, e minha boa ação de hoje começa aqui, arrumo sua bengala gelada pelo ar do ônibus, e ela me olha com ar de satisfação, escorrega novamente e a senhora, despreocupada, já me delegou essa missão, sem culpa. Pergunta a hora, e me vem a súbita vontade de dizer que o banco só abre às dez horas.
    Pede a bolsa, tem vocabulário difícil de entender pela velocidade que fala, parece que em uma frase só falou a palavra bolsa. Retira um óculos escuro, o outro continua lá, repousando em seus seios flácidos. Coloco sua bolsa novamente pendurada na bengala. Percebo que é dominadora, um tipo que todos da familia sai de perto, usa de sua deficiência física para conseguir que todos façam o que quer, cai na “cilada”, e já me vejo atravessando a rua movimentada do centro da cidade com ela apoiada em meu ombro…

    gOSTOU?

    VERA