Criança de colo no colo – campanha pelo respeito ao assento alheio

Sou irremediavelmente reclamão. Reclamo daquelas pequenas coisas, coisa de velho, sabe? Sou um velho de 22 anos, é isso. Consciente disso já não sei se reclamo do que deveria reclamar mesmo ou de coisas tão pequenas que só incomodam a quem leva esse estilo alternativo de viver.

Pelo título do post deu pra sacar né? Os fuzilados de hoje são os espertos que não colocam as crianças de colo no colo. Realiza: você entra no ônibus, passa a roleta. Examina e acha um – um mesmo, o último – lugar vago. Vai andando, quase tropeça com a sua mochila pesada (que ninguém se oferece pra segurar até você chegar no trabalho) chega no lugar vazio e… ele não está vazio. Está ocupado por um projeto de gente que poderia muito bem estar no colo da mãe (ou pai, ou avó, seja lá quem for). E pior que o ônibus vai enchendo e o povo não se liga! Você tenta reclamar e o barraco acontece. O jeito é viajar em pé mesmo.

Ônibus vazio? Apenas ilusão de ótica.Ônibus vazio? Apenas ilusão de ótica.

Fica a campanha: Senhores passageiros portadores de criança de colo, favor colocá-las no colo. Grato.

O conceito de estratégia e os transportes públicos

O conceito de estratégia, em grego “strategía”, em latim “estrategia”… Cap. Nascimento em Tropa de Elite.

Estratégia. É disso que você precisa para não ser xingado no ônibus, no metrô, na barca ou no trem. Se você é newbie nos transportes (principalmente aqui no Rio) siga essa lista:

  • Se for andar de metrô descubra onde a porta abre. Essa vale ouro, principalmente na linha 2. Se você estiver do lado esquerdo e for descer em uma estação onde a porta abre do lado direito já sabe que não vai descer. Rolou comigo: precisei esperar umas 6 estações pra poder descer e voltar pra estação que eu queria ir.
  • Fique esperto na janela. Falar no celular com a janela aberta do lado direito do ônibus na Av. Pres. Vargas é pedir pra ser assaltado. Pedir não, suplicar. Idem para o banco que dá de frente para a porta de saída. As sementinhas do mal pulam dentro do ônibus, catam teu celular e você só vai poder (1) ficar com cara de ué e (2) começar a gritar histericamente “ladrão!”. Nenhuma das duas opções traz retorno.
  • Durma direitinho. Nada de ficar de um jeito que você pode babar no ombro do amiguinho do lado ou ficar com aquela bocona aberta suplicando pra um mosquito te sacanear. Outra coisa importante: nada de perder o ponto, hein.
    Cara dormindo no ônibusEm níveis avançados você pode até desenvolver novas técnicas.
  • Prepare-se para sair do transporte. Está chegando no ponto? Vai guardando suas coisinhas, segurando a mochilinha e você não vai precisar atropelar ninguém. Não existe nada mais chato que os apressados que estavam no meio do vagão do metrô e querem sair antes de todo mundo.
  • Malemolência na saculejada. Isso não se aprende de uma hora pra outra. Somente usuários pro dos transportes sabem como não parecer um boneco e quase cair em cima de outra pessoa quando o ônibus passa na Rodrigues Alves toda esburacada. Segurar sempre um dos ferros (sem trocadilhos, por favor) é importante, principalmente quando você não conhece o caminho.
  • Meta medo. A violência não está mole, portanto esteja (pelo menos aparentemente) do lado de lá da fronteira. Cara de mau mesmo, 06. Se for mulher aparente ser barraqueira. Nenhum bandido curte gritaria durante o assalto.
  • Esqueça o conceito de fila. Parece politicamente incorreto, mas não é. Se existe alguma aglomeração para entrar em um lugar acredite, não é fila. Empurre com jeitinho para não machucar ninguém mas vá sempre em frente.
Tropa de Elite - Cena da bandoleiraQuando for andar de ônibus não esqueça a bandoleira.

Um dia isso muda e você não vai precisar se preocupar com nada disso. Tem até dia marcado: o dia que o Cristo Redentor colocar o braço na cintura e perguntar “Como é que é?”.

Retrospectiva 2009

Esse ano, pela primeira vez, estou com vontade de assistir à Retrospectiva 2009.

Não foi um ano bom pra mim. Foi, com muita boa vontade, razoável e olhe lá. Se o programa fosse sobre a minha vida seria bem chato, com idas pro trabalho ouvindo rádio (BandNews FM, vejam como fico velho) e voltas num metrô apertado com o protagonista se perguntando se era aquilo ali mesmo que ele queria da vida. Não era. Talvez (re)vendo o que aconteceu em 2009 eu veja que pelo menos pro mundo foi um ano interessante.

Não sei como funciona esse programa, não sei se é dividido em meses ou em fatos ou ainda em categorias, tipo “Mortes importantes” e “Escândalos políticos”. De um jeito ou de outro tentei me lembrar o que marcou os noticiários em 2009 e fiz mentalmente uma pequena lista de coisas que eu queria parar de ouvir e não podia. A ordem de exposição é por ordem de aparição na minha lembrança e não por ordem de importância. Não que isso faça muita diferença.

O acidente com o avião da Air France foi o primeiro da lista. Fiz questão de esquecer aquele número do avião (airbus tralalá) que todo santo dia repetiam na minha cabeça, fosse no rádio, na televisão ou no trabalho. Teve o Lula falando que se a gente acha petróleo tão fundo como não acharíamos um avião daquele tamanho. Não achamos.

Teve a crise também. Uma ladainha sem fim, por sinal. O que me lembrou, não sei bem porque, de IPI. Como encheram o saco com IPI! Linha branca, carro, etc. Crise também lembra EUA, que me lembrou Obama que me lembrou que ele ganhou o Nobel da Paz. Deve passar isso na Retrospectiva.

Na categoria “Escândalos políticos” tem o Sarney empregando a família toda. Aliás o termo escândalo é até mal colocado, porque escândalo tem que causar espanto e roubalheira no Brasil não dá em nada – nem em espanto, pelo menos pra mim – faz muito tempo. Teve o caso do Arruda com dinheiro até lá onde o sol não bate (duvida?!) e que – adivinhem – até agora não deu em nada. Nem em panetone.

Nos obituários reinou Michael Jackson e fiquei me perguntando se vão lembrar do Lombardi, do Alborghetti e da Leila Lopes. Aliás eu só me lembrei que o Michael Jackson tinha morrido porque vi no comercial do programa. Teve mais alguém que eu não lembro, com certeza. Vou ficar espantado com esse programa, posso sentir isso.

Teve o cara que roubou não-sei-quem na frente de uma farmácia na Tijuca, não teve? Foi esse ano?! Nem me lembro. Coisas assim passam na Retrospetiva? Nardoni não foi esse ano, mas deve passar alguma coisa. Suzane von Rixksiewstofen idem e aquele cara que (dizem) traçava as pacientes que queriam inseminação artificial também.

Se eu continuar envelhecendo tanto quanto me senti envelhecido – não no corpo, mas na mente, se bem que no corpo… – no final do ano da graça de dois mil e dez estarei assistindo a São Silvestre.

Diário de um passageiro

Na época que decidi criar conteúdo para internet eu andava todo dia no mesmo ônibus no mesmo horário vendo as mesmas pessoas. O fato de vê-las todo dia, podendo observar seu comportamento – às vezes caras de tristeza, às vezes felicidades, ligações telefônicas – me levou a pensar em escrever um blog que teria como título “Diário de um passageiro”. A idéia não vingou (pra variar por preguiça minha).

Ontem terminei de ler “Quincas Borba” do Machado de Assis onde o personagem principal, Rubião, vai da pobreza à morte passando pela riqueza, paixão, ambições, loucura e fome (tudo isso contando com a companhia de um dos Quincas Borba do livro).

Esses fatos aparentemente disconexos, a não ser pelo fato de fazerem parte da minha vida, ficaram mais perto um do outro hoje, quando peguei o mesmo ônibus que pegava antes. Os personagens de antes foram-se embora e percebi a entrada de outros, novos, melhores por suas raridades e diferenças.

Primeiro um ruivo com barba grande e sem bigode que me remeteu à um daqueles leprechauns (ele não vestia verde). Depois um louco, não como o Napoleão/Rubião do Machado, mas uma mistura de Didi Mocó com Ricardo Blat. O cara fazia altos gestos e caretas e todo mundo achava a maior graça. O casal que estava sentado atrás de mim soltou um “só tem raridade nesse ônibus” o que me fez pensar na importância da nossa sanidade, na linha tênue entre ter estilo e ser ridículo e um pouco no sentido da vida (a viagem estava acabando à essa altura).

Fatos do cotidiano me levam a adotar a visão Machadiana da vida: um espetáculo tedioso, onde fatos relevantes são excessões. Vivemos num drama com romance, comédia, suspense, ficções, mentiras, vilanias, ironias e cinismo.

A vida é um espetáculo e o gênero só depende do ponto de vista.

Fone de ouvido não é megafone – campanha pelo respeito ao ouvido alheio

Post curto sobre a falta de noção das pessoas que andam comigo nos transportes públicos.

Hoje, na ida pro trabalho, sentei do lado de uma estranhíssima figura. Roupa estranha, cabelo engraçado, óculos escuros, pulseiras e um celular na mão. Preso ao celular um fone de ouvido.

Tenho dormido pouco e mal durante os últimos dias e achei que poderia descontar o atraso do meu sono cochilando na ida pro trabalho. Não consegui. O figura do parágrafo anterior ouvia seus funks no último volume! O som era tão alto que parecia que o fone de ouvido dele era uma espécie de megafone, sei lá. Mudei de lugar – um banco na frente – mas não adiantou. Fui acordado mesmo, quase xingando o infeliz pelo falta de educação.

Na volta do trabalho a esperança voltou: peguei o metrô, depois a integração e já ia embarcando num cochilo quando um rapaz sentado do outro lado do ônibus começa a conversar no celular. Conversar não, berrar. Seres civilizados não conversam daquele jeito. Falava tão alto que praticamente acompanhei a conversa inteira mesmo estando sem o menor interesse na professora dele que não foi a aula porque estava doente e sei lá mais o que.

Não foram as primeiras vezes que coisas assim aconteceram. Na próxima vez que um maluco começar a falar/ouvir som alto no busão prometo protestar: começo a berrar no ouvido do infeliz…